Pedagogia do suprimido

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Este Zeh é um poeta singular: mexe e remexe nas palavras e cria um léxico próprio, capaz de traduzir olhares e sentimentos do eu lírico, por ele inventado, e de captar a ambiência e o discurso, tantas vezes suprimido, da rua, dos passantes do século XXI. Essas pessoas vivem no não lugar, na zona do interstício, e podem ser identicadas pela ausência, pela perspectiva do quase, em qualquer lugar deste planeta. Não estão confinadas na periferia do Rio de Janeiro; encontram pares em algum canto onde a voz do povo seja abafada por uma sociedade que, de forma intermitente, só respeita as diferenças na teoria e/ou em público. E, às vezes, nem isso. Essa é a sociedade do escape em que tudo está perto e distante, em que tudo está em oferta, mas não se tem como adquirir.

Em alguns poemas, parece que Zeh está promiscuído ao eu lírico e meio descoberto aos olhos daqueles que com ele esbarram nos meios-fios, nas marquises, nos botecos, nos becos, nos resvalos, no Morro da Conceição, na Prainha, na Pedra do Sal, nos terreiros de breque do Rio de Janeiro, no Brasil, nas terras do sem-fim, nos atalhos da terra do nunca. Nesses meandros da cidade, ele canta-se, conta-se, versa-se e joga conversa dentro, conversa fora. Cria-se.

O quase, o lusco-fusco e o indefinido acompanham a saga da supressão desse eu lírico, às vezes enlaçado ao poeta, que se sente suprimido, sem lugar. Engano dele, certeza nossa, leitores, de que o espaço zehiano é o entrelugar em que estão tantos outros de sua linhagem literária (Lima Barreto, João do Rio, Antônio Fraga, João Antônio e outros). Lá no entrelugar, espaço de abrangência ilimitada, ele e seus comparsas se instalam, se desinstalam, se acomodam, se desacomodam e (se) incomodam.

A vida, portanto, institui-se na arte; a arte, na vida. O desterro da forma clássica do poema em Zeh Gustavo retrata o homem da cidade grande, do século XXI, para quem “não há horizontes / sem o enfrentamento da correnteza, / nem sem que os olhos marejem, / vez em quando, / do sal que arde as feridas / e aguça o viço, / rumo à próxima topada”, à próxima esquina, ao próximo poema. (Maria Célia Barbosa Reis da Silva)

Descrição

Pedagogia do suprimido

Zeh Gustavo

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